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MARAVILHOSA, Rio de Janeiro, Brazil
Diante de tanta contradição da vida, aprendi que devo ter alto astral acima de qualquer coisa!Eu nunca imaginei que seria pedagoga. Não me preparei para isso. Ela chegou sem que eu preparasse o seu caminho e por isso fiquei tão apaixonada. Essa é para mim a profissão mais linda e digna que existe... Sem sonharmos e idealizarmos algo melhor, nunca poderemos alcançar um diferencial.Essa é minha ideologia e não posso deixar que apaguem por não acreditarem que existe solução para a educação do nosso país,"Não,podemos viver sem ideologias, ter sucesso sem acreditar em valores fortes, concretos,lutar por nossos objetivos sem acreditar que eles serão alcançados,almejar uma vida de realizações soterrando nossas verdadeiras crenças.Tenha suas ideologias muito bem definidas e paute sua vida sobre elas. Não tenha medo do que os outros vão pensar se você está realmente convicto no que acredita ser o certo,não tenha medo de fracassar embasado nelas, aprenda que neste mundo nada é absolutamente ruim ou bom e que sempre,terá que defender suas escolhas e pagar por elas." Eu estou consciente pela escolha que fiz na minha vida profissional,e você?

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Este espaço é algo criado por mim para dividir, com todos que, assim como eu, adoram de fato o que fazem dentro da educação, um pouco do que pesquiso na internet e também do que tenho de material voltado à esta área que de fato sou louca de paixão.

Peço desculpas pela demora em atualizar os conteúdos.

No mais, a todos que visitam este blog, espero que até o momento tudo que há de conteúdo esteja sendo agradável.

Com carinho,

Lu Moraes
contato: luciana.moraesmaluf@gmail.com
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“Ninguém começa a ser educador numa certa terça-feira às quatro horas da tarde. Ninguém nasce educador ou marcado para ser educador. A gente se faz educador, a gente se forma, como educador, permanentemente, na prática e na reflexão sobre a prática”

(Paulo Freire, em “A educação na cidade”)

“Ser professor é um privilégio. Ser professor é semear em terreno sempre fértil e se encantar com a colheita. Ser professor é ser condutor de almas e de sonhos, é lapidar diamantes" Gabriel Chalita

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Eu fico com a pureza da resposta das crianças: a vida é bonita.
Viver e não ter a vergonha de ser feliz.
Cantar e... cantar e ...cantar a eterna beleza de ser aprendiz.
Eu sei que a vida devia ser bem melhor. E será.
Mas issoo impede que eu repita: é bonita, é bonita, é bonita!
(Gonzaguinha).

"Há os que adquirem conhecimento pelo valor do conhecimento - e isto é vaidade de baixo nível. Mas há os que desejam tê-lo para edificar outros - e isto é amor. E há outros que o desejam para que eles mesmos sejam edificados - e isto é sabedoria." - (Bernardo de Claraval)
"Todas as postagens que não são de minha autoria é dado o devido crédito e citado a fonte, até porque quando se copia algo de alguem a intenção não é fazer plágio, e sim divulgar as informações para um maior número de pessoas favorecendo assim o conhecimento."
Lucia Araújo/cc: Luciana Moraes

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Um desafio que vai além das provas

Um dos sonhos de grande parte dos jovens, hoje em dia, é ter sucesso no mercado profissional. E um dos caminhos mais buscados para alcançar este objetivo é, sem dúvida, entrar em uma universidade. E apesar do crescimento na oferta de cursos superiores privados, a procura por instituições públicas ainda é muito grande. E justamente por isso, uma vaga em uma faculdade gratuita é tão difícil.

Mais de 57 mil pessoas se inscreveram, por exemplo, somente para o Vestibular Estadual 2011, realizado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Já as vagas ofertadas não chegam a 5.800. E, nas demais instituições mantidas pelos governos estadual ou federal, o quadro, na maior parte dos casos, é semelhante.

Para se preparar para uma competição tão acirrada, estudantes de todo o Brasil que prestam vestibular para diversas instituições ao mesmo tempo dedicam, pelo menos, um ano de suas vidas à preparação. O que aumenta ainda mais a expectativa e a pressão para conseguir a vaga. Afinal, falhar significa ter de concentrar as energias em mais 365 dias de preparação e retardar o ingresso no mundo profissional.

Não por acaso, o ano do vestibular, para muitos, é de estresse contínuo. Ao lado da cobrança pessoal gerada pela expectativa de passar ou não para a universidade, convivem as esperanças depositadas pelos pais, amigos, namorados, e pela própria escola, em torno do resultado. Diante de tanta pressão, cabe aos vestibulandos, e aqueles que estão ao seu redor, saber trabalhar e equilibrar tais sentimentos, para que a vitória não se perca no caminho.

A estudante Brunna Assumpção, de 17 anos, vive na pele o estresse do vestibular. Prestando o concurso pela primeira vez para ingressar no curso de Matemática, a jovem afirma que o nervosismo tem tomado conta das suas noites. Dias antes do Exame de Qualificação da Uerj, a vestibulanda não conseguiu dormir, o que atrapalhou seu rendimento.

"Passei noites em claro e depois da primeira prova da Uerj, refiz as questões em casa, com mais calma, e acertei muito mais", lamenta. O quadro fica ainda mais complicado quando, à pressão, é somada a insegurança, principalmente quando o candidato não tem como se dedicar aos estudos como deveria. É o caso de Igor Serra, de 17 anos, que cursa o ensino médio/técnico, faz estágio e presta, pela primeira vez, vestibular para Economia.

Ele considera a ansiedade algo comum nessa fase da vida mas acredita que o vestibular agrava o quadro. "Faço muitas coisas durante o dia. Como a maioria dos estudantes que presta o vestibular também está no colégio, é complicado saber administrar o tempo livre", comenta. O fato de nunca ter tido contato com esse tipo de avaliação não o assusta. "Acho que a insegurança bate em quem já tentou várias vezes e ainda não conseguiu entrar."
"Ano de vestibular é uma loucura", desabafa jovem
O nervosismo, muitas vezes, não parece atingir alguns veteranos. Os mais maduros, que sabem lidar melhor com sentimentos como ansiedade, expectativas e frustrações, podem ser beneficiados. Com 34 anos, Maurílio Santos já tentou ingressar no curso de História diversas vezes. Para ele, a não obtenção da vaga até o momento não significa que não saiba o conteúdo, porém demonstra que a concorrência para a graduação pública tem crescido cada dia mais.

Os próprios vestibulandos buscam suas estratégias para evitar que o estresse e a tensão da época do vestibular prejudiquem o rendimento nas provas. Maurílio acredita que a auto-confiança é o segredo para se alcançar o objetivo desejado. Quem possui o mesmo ponto de vista é Allan Kelvin, de 17 anos. O jovem já prestou concurso para ingressar em instituições como a Cefet/RJ e Faetec. Esse ano, tentando um vaga no curso de Engenharia de Produção da Uerj, ele não mudou sua rotina de vida por causa dos estudos.

"Claro que me dedico, mas não deixei de fazer nada por causa do vestibular. Procuro me distrair", comenta. Para atingir o mesmo objetivo, reduzir a ansiedade, Rafaela Oliveira procura não abrir mão de seus momentos de lazer. Mesmo assim, a jovem, que tem 17 anos e tenta cursar Jornalismo, se diz muito nervosa com o vestibular. "Esse é um ano em que somos muito pressionados. É praticamente um obrigação passar para uma faculdade pública, escolher e seguir uma carreira assim que acaba o ensino médio. Você tem que se preocupar em passar de ano, em passar na matéria que você está pendurada. Se preocupa com o vestibular, com data de inscrição, pagamento das taxas. É uma loucura", desabafa.

E para sorte, ou azar, dos estudantes, o vestibular sofreu uma grande mudança. O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a partir do ano passado, tem sido usado como forma de ingresso para diversas instituições. Allan Kelvin acredita que a alteração foi benéfica, pois simplifica o processo de seleção. Já Rafaela Oliveira, apesar de ver pontos positivos no novo sistema, é contra a realização de um único exame par tantas faculdades.

"Por um lado, o Enem diminuiu a quantidade de prova para serem feitas. Porém, o estresse é muito maior, pois se você não for bem, perde praticamente todas as oportunidades de ingressar para uma faculdade pública. A responsabilidade e o estresse são dez vezes maiores", analisa. Assim como acontece com muitos candidatos, o estresse da vestibulanda aumenta com a chegada da data da prova. "O nervosismo aumenta ainda mais a partir de uma semana antes da prova, pois não sabemos se estudamos mais ou não. Na véspera da avaliação, também ficamos ansiosos, pois não sabemos se estudamos, ou descansamos", comenta Rafaela.
É preciso cuidado para lidar com a situação
Para a psicopedagoga e presidente da seção Rio de Janeiro da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Ana Paula Loureiro e Costa, o vestibular ainda é visto como um "bicho de sete cabeças", pois é o fim de um processo e o começo de outro. Segundo a especialista, para esses alunos, a faculdade é algo novo, desconhecido, totalmente diferente da escola. E por isso mesmo, eles sentem tanto medo de não se adaptar a esse novo mundo.

Ainda de acordo ela, que também é orientadora profissional do Colégio Andrews e diretora do Centro Psicopedagógico de Autoria Profissional (CePpav), um fator agravante de toda essa ansiedade comum aos vestibulandos é o fato de que os jovens têm medo do fracasso e poucos são os que sabem lidar com situações desafiadoras como esta. "Os alunos têm as próprias expectativas, que são somadas às expectativas da família e da escola. Isso tudo abala muito os jovens emocionalmente", comenta.

Esta também é uma fase de transição, onde os estudantes não são mais crianças, mas também não são adultos. E, exatamente neste momento, a família e a sociedade, de forma geral, exigem uma escolha profissional, que acreditam, deva ser definitiva e acertada. E para quem acha que preocupações como esta não são tão importantes, o psicofisiologista Marcello Árias Dias esclarece que o estresse
destrói células responsáveis pela aquisição e recuperação de memórias e pode prejudicar o desempenho do vestibulando.

Manter o corpo relaxado e a mente atenta, porém tranquila, são os melhores remédios para que o empenho de um ano todo não seja em vão. "Durante períodos prolongados de estresse, são liberadas várias substâncias químicas no organismo, entre elas um hormônio chamado cortisol. Este hormônio age negativamente no hipocampo, uma estrutura do cérebro que exerce papel fundamental nos processos associados à memória", alerta o psicofisiologista.

Outra questão ressaltada pelo profissional é que a falta de exercícios físicos regulares, somada à exposição a altos níveis de estresse, além da adoção de dietas inadequadas e de posturas corporais estáticas na maior parte do tempo, muitas vezes com atitudes somáticas incorretas, levam o corpo dos estudantes a se tornar uma fonte de tensões.

Os músculos ficam mais enrijecidos e, por consequência, mais vulneráveis às lesões, assim como as demais estruturas, criando dessa forma uma reação em cadeia indesejada, ou seja, um sério transtorno de saúde. Além disso, existem evidências de que o estresse pode ter continuidade durante grande parte do período universitário e a criação de hábitos comportamentais inadequados pode dar início a um ciclo vicioso que terá enorme repercussão na vida do estudante.

As famílias também devem repensar suas expectativas perante aos filhos, para verificar se não estão depositando neles, frustrações passadas. "Não existe uma receita única para as famílias seguirem, pois não existe um único tipo de filho. Os pais devem conhecer os filhos que têm e não devem somente julgar e criticar. Precisam também ouvir, conversar, acolher e apoiar", sugere a psicopedagoga.

"O modelo de vida sedentário, preocupado, ansioso adotado no período pré- estibular pode solidificar-se no comportamento do indivíduo, vindo a fazer parte de sua personalidade", esclarece Marcello Árias. Saber se organizar e dosar os períodos de estudo e relaxamento, além das emoções, certamente contribuem para um melhor desempenho em momentos difíceis e de desafio como este, e podem se tornar a ponte entre o sonho e a realização daquele que, em vários casos, é o primeiro grande objetivo de vida de um jovem. 
Confira as dicas dada pela psicopedagoga Ana Paula Loureiro que podem ajudar a baixar o nível de estresse dos vestibulandos
- Organizar bem o tempo e o conteúdo a ser estudado é fundamental para o estudante sentir-se preparado e com isso ganhar mais segurança antes e durante as provas. Na reta final, o tempo de estudo aumenta consideravelmente enquanto que os intervalos de descanso diminuem bastante. Por isso um bom planejamento ajuda muito nesse momento;
 
- Procurar ajuda, caso não consiga eleger suas prioridades e metas para construir seu plano de estudos. Nada de vergonha. Afinal, não é tarefa fácil!
 
- Conversar com seus familiares, amigos ou profissionais especializados, sobre seus sentimentos alivia a tensão dessa fase de incertezas, angústia, medos e desejos;
 
- Cuidar da alimentação e do sono sempre. Evitar, principalmente em vésperas de provas, alimentação carregada de gordura, pois a tendência é ficar com sonolência excessiva por causa da sobrecarga metabólica, o que diminuirá a produtividade nos estudos diários. Outra dica importante dentro desse aspecto é quanto ao jejum. Nada de jejum antes das provas! Nutricionistas e médicos alertam para o perigo desta atitude, pois favorece a hipoglicemia [concentração baixa de açúcar no sangue] dificultando o raciocínio. Além disso, a fome tira a concentração;
 
- Além de estudar, não deixe de lado as atividades sociais e de lazer. Embora seja comum pensar que a prática de atividade física é perda de tempo, estas atividades ajudam a liberar substâncias químicas que auxiliarão nos estudos, além de provocarem sensação de bem-estar. Estudantes que não respeitam os limites do cérebro podem sofrer fadigas mentais e perder a concentração na reta final da maratona do vestibular. Sendo assim, procure conhecer seus próprios limites para avaliar quanto tempo de estudo diário você aguenta, sem perder a qualidade, e quanto de intervalo se faz necessário para descansar. Cada um tem um ritmo, não existem fórmulas mágicas que se adequam a todos os vestibulandos. Por isso, autoconhecimento é fundamental!

- Dias antes das provas não se estresse tentando aprender em poucos dias conteúdos que não conseguiu aprender ao longo de todo o ano. Será um desgaste emocional desnecessário;
 
- Durante a resolução das provas, fazer primeiro as questões mais fáceis, aquelas que você domina. Evite perder tempo com questões que considerar difíceis. Procure controlar o tempo.
- Manter-se informado lendo revistas e jornais diários ou qualquer outra fonte de informação. Os temas da atualidade costumam cair em redações e questões dos vestibulares;
- Não deixe dúvidas passar em branco. Leve as para seu professor para esclarecê-las, pois elas poderão aparecer na prova.
- Procure estudar a matéria em casa no mesmo dia em que você teve na escola. É a melhor forma de assimilar e garantir o aprendizado. Durma bem, pois é durante o sono que o cérebro processa e assimila tudo que foi aprendido durante o dia.
- Deixe todos os documentos necessários em ordem e prontos para serem utilizados no dia da prova. Monte seu kit vestibulando. Guarde tudo numa pastinha mantendo- a no mesmo lugar.Assim, evitará desgaste emocional tendo que procurar pelos documentos necessários na véspera ou dia da prova.
 
fonte: Folha Dirigida

Novas formas de ensinar

A necessidade de um ensino com qualidade vem sendo discutida há muitos anos por especialistas e educadores. A sociedade, por sua vez, também tem se mostrado cada dia mais preocupada com questões relacionadas ao assunto. Contudo, apesar de tanto debate, a situação não parece ter melhorado muito.

Os especialistas já apontaram que a melhora no ensino passa por diversos fatores, que devem ser trabalhados conjuntamente e que a relação dos alunos com a escola, com o mundo e com a sociedade é totalmente diferente do que era a alguns anos atrás.

E, para que o aprendizado tenha sucesso, essa diferença deve estar também presente nas salas de aula. A relação aluno-professor deve ser reformulada e cabe, principalmente aos professores, tentar unir o mundo dos jovens ao do estudo. As tecnologias que temos hoje, e principalmente a internet, podem ajudar neste processo, desde que sejam utilizadas de forma adequada.

Para atrair os alunos é preciso criar, dentro da sala de aula, conexões com a realidade desse estudante. Para vários especialistas, as novas tecnologias podem - e devem - ser utilizadas para amezinar tal disparidade, pois conseguem resgatar a noção de individualidade.

O professor associado à Faculdade de Educação da USP, César Nunes, acredita que se o desejo do professor é que todos aprendam, cada um deve ser abordado de forma diferenciada. "Os meios sociais e outras ferramentas da internet têm colaborado muito para isso, mas é preciso saber usá-las", afirma.

Segundo ele, a internet é capaz de melhorar o ensino, mas precisa ser mediada por alguém que consiga filtrar o que ela oferece. Esse é um dos principais papeis do professor atualmente, pois o aluno, sozinho, dificilmente consegue ter tal discernimento.

A internet e as novas tecnologias de forma geral, utilizadas de forma correta, auxiliam no processo educacional, pois permitem atividades colaborativas que fazem parte do dia a dia dos jovens, e ao mesmo tempo, promovem discussão, análises críticas, fomentam a criatividade dos alunos e outras competências como organização e capacidade.

Para Cesár Nunes, nos meios e redes sociais como You Tube, Google Docs, Orkut, Twitter e Facebook, os usuários também são autores. Dessa forma, os educadores podem fortalecer a questão da autoria dos trabalhos estudantis. "Esse tipo de trabalho, com foco no aluno, resgata o papel de protagonismo dessas pessoas. Isso é muito importante para a varolização do indivíduo e a construção de cidadãos melhores", acredita o professor.

As comunidades carentes ainda possuem bolsões de tecnologia, porém ainda de acordo com o especialista, é possível sanar esse tipo de problema adequando as ferramentas utilizadas de acordo com a realidade de cada ambiente. "A escola pode ser um lugar de resistência ou de reinvenção social. É preciso ser ativo para construir uma nova realidade de ensino em nosso país", diz Joe Garcia, doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica  de São Paulo (PUC-SP).
Jornalista, sociólogo e um dos principais pesquisadores em Comunicação Social do país, Muniz Sodré também defende a utilização das novas tecnologias na sala de aula. Para ele, porém, não basta agregar tecnologia ao quadro negro, é preciso saber utilizar esses instrumentos. É necessário perceber quais as mudanças que essas tecnologias trazem para ideia de educação, onde o jovem começa, de certa maneira, a relativisar o professor e educar-se a si mesmo.

"Toda essa tecnologia convoca um tipo de educação para a diversidade, por tanto, um outro tipo de leitura do mundo. Ser contra a tecnologia é burrice, pois isso é um produto dos homens. A grande tarefa, hoje, é encontrar e desenvolver as formas de iniciar os estudantes nessas novas formas de aprendizagem", acredita o sociólogo.

Para Muniz Sodré não é verdade, por exemplo, que os jovens hoje, têm menos interesse pela leitura. O que acontece, é que o jovem lê de modo diferente de antigamente. "Quando vê um video-clipe na tv, quando vai ao cinema, vê novela, assiste a um filme, um cartaz na rua, lê um email ou procura um texto na internet também está lendo, aprendendo."

Talvez, o mais importante no que diz respeito à educação hoje, seja fazer com que, de algum modo, essa pluralidade de textos entre na escola. A solução mais uma vez se confirma: aproximar os dois mundos - dos jovens e do ensino. "Hoje, existem muitos jogos educativos de várias disciplinas e assuntos que são verdadeiras aulas. Esses materiais devem ser usados, mas em ambientes pedagógicos e não desordenadamente", declara. O problema não é ter muita informação, mas saber trabalhar com elas.

Crise de valores é outro obstáculo ao aprendizado
Mas não são apenas as novas tecnologias que devem entrar na sala de aula. Segundo o doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica  de São Paulo (PUC-SP), Joe Garcia, a dificuldade para lidar com jovens se deve à falta de autoridade que os educadores têm sobre os alunos. "As famílias não estão mais conseguindo fazer com que seus filhos cheguem à escola com valores éticos, morais e civis", afirma.

Esta é uma crise de autoridade presente não só na escola, mas em todos os segmentos da sociedade. Porém, segundo o especialista, ao contrário de gastar esforços para identificar os culpados, é preciso se ater na busca de soluções. "Os professores devem se envolver com os alunos, pois a autoridade envolve vínculos emocionais, e devem interiorizar neles tais valores", acredita.

Ainda segundo Joe Garcia, este é um grande obstáculo a ser vencido, pois muitos professores não sabem se relacionar com os estudantes. "Os cursos de licenciatura ainda não conseguem passar ensinamentos quanto à liderança, relacionamento e autoridade e outras competências comportamentais. Os profissionais saem da graduação despreparados", critica.

Para o doutor em Educação, a construção da disciplina nas escolas é algo que se constrói em conjunto, ativamente. Para ele, é importante que os educadores diminuam as críticas, tentem trabalhar o que esses jovens têm de bom, seus pontos positivos, e identifiquem aspectos em comum com a vida dos estudantes.
Professores têm procurado aprimorar o ensino em sala de aula
Mas importante que procurar e descobrir soluções, é colocá-las em prática. E apesar da demora, tais ações começam a ser executadas pelos educadores. Professora de Matemática do quinto ano (antiga quarta série), Silvia Regina Araújo concorda que os estudantes de hoje agem totalmente diferente dos estudantes de anos atrás, porém procura se adequar a essa nova realidade.

Lecionando há mais de duas décadas, a professora afirma usar técnicas lúdicas e jogos para tornar a aula mais interessente, porém critica o modelo de ensino atual. "A educação diz que nós temos que mudar, temos que inovar nossos métodos, mas quando chega na hora da prova do vestibular, o que é que cai? O tradicional. Se alguém vai fazer um concurso, o que é que cai? O tradicional. O professor acaba se acomodando, pois esses exames não têm acompanhado as novas abordagens de ensino", acredita.

Professora há 15 anos de Inglês, Marta Soares tenta melhorar o relacionamento com seus alunos não só com utilização destas ferramentas, mas também acompanhando-os mais de perto, se envolvendo mais com eles. "Busco sempre dar aulas dinâmicas e que se aproximem da realidade do aluno. Hoje, é preciso ter muito amor ao que se faz", afirma a professora que dá aulas do jardim dois até o último ano do ensino fundamental.

Apesar da influência da internet, a coordenadora de uma escola particular, Cândida Ferreira acredita que o que mais prejudica o ensino nos dias de hoje, é o não apoio dos pais. "Os pais estão dando bem menos apoio aos alunos do que há duas décadas atrás, quando comecei a trabalhar. As escolas sempre tiveram crianças levadas e com problemas de comportamento. Isso não é algo novo, mas eu acho que hoje eles estão sem limites. A educação familiar está caindo muito e isso tem se refletido na escola também", afirma. 

fonte: Folha Dirigida

Um retrato preocupante da desigualdade educacional

Rio de Janeiro, ano de 1996. Nas favelas, poucos moradores têm acesso à educação. Bem perto dali, no "asfalto", os moradores de bairros frequentam tanto instituições de ensino públicas quanto privadas. Em uma época na qual as desigualdades sociais eram facilmente percebidas, onde prédios de luxo se encontravam a poucos metros de comunidades carentes, a diferença do número médio de anos de estudos entre os cidadãos dos morros e do restante da cidade era de 3,79 anos.

Nos doze anos seguintes, muita coisa mudou. A cidade evoluiu, a população aumentou, políticos se sucederam e diversas ações e projetos foram colocados em prática por governos de diferentes orientações. Porém, o abismo entre o nível de escolaridade dos moradores da favela e do asfalto ainda continua, embora tenha caído para 3,51 anos. Os dados são de uma pesquisa recente da Fundação Getulio Vargas (FGV), intitulada "Desigualdade e Favelas Cariocas: A Cidade Partida está se Integrando?".

O estudo analisou, além do aspecto educacional, fatores como renda, saúde e condições de trabalho. Sob a coordenação do economista Marcelo Neri, os dados mostraram a distância entre o acesso à educação nos morros e no "asfalto". A escolaridade média dos não-moradores de favelas do Rio, é de 9,89 anos de estudo. Já a escolaridade média nas favelas é de 6,38 anos, ou seja, não representa nem o fundamental completo. O título da pesquisa pode até parecer otimista, mas será que podemos considerar que a cidade partida está mesmo se integrando ainda que com uma evolução em marcha lenta? Ou o fato de os dados estarem se aproximando podem significar que a educação como um todo não está avançando?

"Falta muito ainda a ser feito pela educação e eu acho que não está avançando em nada mesmo. Em 50 anos de magistério eu vejo que a educação piorou muito. Por enquanto está difícil acreditar nessa integração. Vai demorar", afirmou Bertha do Valle, professora do Departamento de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Desigualdade é ainda maior em relação ao ensino superior
O levantamento constatou que a escolaridade dos moradores de favelas na cidade do Rio de Janeiro não apresentou ganhos significativos nos últimos 12 anos, em relação à população que não vive nos morros. De acordo com os dados coletados, o tempo de permanência nas salas de aula aumentou. Os alunos das comunidades passam 4,106 horas diárias na escola, enquanto o mínimo fixado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) é de quatro horas por dia. Ainda assim, esses estudantes ficam cerca de 15 minutos a menos do que os moradores dos outros bairros.

Também analisado pelo estudo, o ensino universitário apresentou um crescimento no percentual entre os estudantes das favelas. A educadora da Uerj acredita que o avanço se deva a programas sociais. "O ProUni deve ter contribuído para este aumento percentual. Foi um grande avanço, mas bastante pequeno para uma cidade com tantas opções de cursos superiores", alertou. Porém, a diferença entre comunidade e asfalto aumentou. Em 1996, 16,38% dos moradores dos bairros possuíam ensino superior, contra apenas 0,84% dos moradores das comunidades, o que representa uma variação de 15,54 pontos percentuais. Já em 2008, ano final da pesquisa, o número era de 24,09% no asfalto e de 2,57% na favela, 21,52 pontos de distância. A proporção de indivíduos com curso superior universitário nas favelas é quase 10% da registrada no resto da cidade.

Mas por que, em mais de uma década, o afastamento entre a formação média dos moradores de favelas e do asfalto não caiu de forma significativa? "Os investimentos em educação estão muito abaixo da necessidade do processo educacional", declarou Bertha do Valle. E o que teria sido decisivo para que, ao longo dos 12 anos de referência da pesquisa, o acesso à educação não tenha se tornado mais equânime entre várias regiões da cidade? Segundo a educadora da Uerj, faltou investir em aspectos prioritários para melhorar a qualidade.

"Precisaria de um maior investimento na estrutura física das escolas, implantação de horário integral em todas elas, currículo diversificado para os alunos, incluindo diferentes modalidades desportivas, música, artes, visitas a museus e exposições, melhores condições de trabalho para os profissionais da educação, planos de carreira atraentes para que os professores mais capacitados não se evadam do magistério", completou.

O destaque inicial do estudo foi dado à análise das grandes favelas cariocas como o Complexo do Alemão, Jacarezinho e Rocinha, além dos reassentamentos urbanos da Cidade de Deus e da Maré. O foco nessas comunidades, nas palavras do coordenador da pesquisa, que confirmam a fala de Bertha, talvez ilustre o lado mais difícil da crise metropolitana brasileira: o surgimento e o crescimento de uma nova pobreza muito próxima de áreas de alta riqueza e desassistida pelo Estado.
Desinteresse é a razão mais frequente para evasão escolar
Outro aspecto analisado pela pesquisa foi os motivos pelo qual os estudantes moradores de comunidades carentes deixam de frequentar a escola. Segundo o levantamento, 39% do jovens abandonam a sala de aula simplesmente por falta de interesse. Outros 31% largam os estudos por terem de trabalhar. Com relação aos não-moradores de favelas, 25% dos jovens abdicaram da educação formal por falta de interesse em estudar e outros 22% por necessitarem gerar renda para a família.

De acordo com Marcelo Neri, 34% dos habitantes de favelas tem até 19 anos de idade. Levando o dado em consideração, o número de pessoas que trabalha em uma fase da vida escolar é significativo. Esta, porém, não é a conclusão mais preocupante. Para a socióloga especialista em Antropologia Social Ilana Strozenberg, a perda de interesse do jovem pela sala de aula deve ser olhada com mais cautela.

"Antes imaginava-se que o que impedia o aluno de ir à escola era o fato de ele ter que começar a trabalhar muito cedo. Hoje, percebemos que não é mais assim. Os jovens não vão à escola porque a escola é ruim", diz Illana, que também é colaboradora do Observatório de Favelas, organização social de pesquisa, consultoria e ação pública dedicada à produção do conhecimento e de proposições políticas sobre as favelas e fenômenos urbanos.

A pesquisadora acredita que o sistema de ensino está defasado em relação à realidade da juventude atual. Segundo ela, está enganado quem pensa que, nas comunidades carentes, a juventude não tem acesso à cultura da internet, por exemplo. "A forma deles de se relacionar com o conhecimento nas escolas tem muito pouco a ver com o sistema escolar. A forma de ensino não atende a essa nova maneira de existência. Muitos deles preferem passar o dia em uma lan house do que frequentar aulas", diz a especialista, para quem, a situação é semelhante em relação a jovens de outras camadas sociais.

"A juventude classe média também não está interessada na escola. A diferença é que eles se mantém por lá porque a família não permite que ele saia. O controle é diferente", disse, acrescentando que os investimentos nas escolas como um todo devem contemplar não só os espaços físicos, mas também uma revisão da metodologia. Não reconhecer a instituição de ensino como um local interessante pode ter como justificativa uma série de aspectos, como os citados pela socióloga. Mas, será que o alto índice de evasão por desinteresse também reflete um quadro no qual o jovem de comunidade carente não compreende o papel que o acesso à educação pode ter para seu futuro? Na visão de Ilana, nestes locais, em geral, os moradores podem até considerar o acesso à educação importante. Porém, não enxergam a escola, em seu formato atual, como um espaço de crescimento.

"Penso que eles se sentem aprendendo muito pouco em sala de aula. Pesquisas mostram que, mesmo depois de cinco anos estudando, os alunos permanecem analfabetos funcionais. Estar na escola, para muitos deles, não significa uma garantia. Sabem que o aprendizado é importante, não são ingênuos. Não acredito que seja uma falta de desejo, mas uma percepção de que aquilo não vai trazer grandes ganhos. Eles não vêem a instituição como uma porta para o futuro. Na favela, muitas vezes a escola significa apenas um lugar mais seguro".

Aos jovens trabalhadores, uma alternativa seria o ensino noturno. Em algumas comunidades, esta modalidade já existe. A ampliação de vagas neste setor e o investimento maciço poderiam solucionar o problema daqueles que são impedidos de frequentar a escola pela necessidade de gerar renda.

Como professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretora acadêmica do Instituto Contemporâneo de Projetos e Pesquisa, além de especialista em cultura, disseminação e democratização do conhecimento, Ilana Strozenberg alerta para os perigos de evasão no ensino noturno. "É uma proposta interessante. Mas depende muito do ensino que será ministrado. De que forma vamos atrair esses jovens que já trabalharam um dia inteiro? É preciso mostrar e fazer com que efetivamente a escola os direcione para uma vida diferente da que levam", concluiu.

Fica, então, a expectativa de que, nos próximos 12 anos, as políticas implantadas realmente reduzam o abismo educacional entre as áreas mais ricas e mais pobres da cidade.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

AUTISMO - PERGUNTAS E RESPOSTAS

Bem, como á foi dito algumas vezes, estou fazendo pós em psicopedagogia e abordamos inúmeras síndromes e transtornos, mas o mais visto e falado é o autismo e como em meu trabalho de conclusão devo fazer uma abordagem sobre eles, resolvi através das minhas pesquisas sobre o assunto,  postar informações que obtive através de um site muito legal que descobri através de pesquisas.

Como professores e educadores (para mim há diferença entre ambos), temos a obrigação de estarmos informados sobre qualquer tipo de síndrome ou transtorno, pois todas as escolas tem perante a lei que aceitar e receber muito bem todos os tipo de alunos, seja autista, cadeirante, down entre outros. 

Respostas às perguntas que os familiares da pessoa autista precisam ter na ponta da língua

E. Christian Gauderer

   O que é autismo?
   
Autismo é uma doença grave, crônica, incapacitante que compromete o desenvolvimento normal de uma criança e se manifesta tipicamente antes do terceiro ano de vida. Caracteriza-se por lesar e diminuir o ritmo do desenvolvimento psiconeurológico, social e lingüístico. Estas crianças também apresentam reações anormais a sensações diversas como ouvir, ver, tocar, sentir, equilibrar e degustar. 

A linguagem é atrasada ou não se manifesta. Relacionam-se com pessoas, objetos ou eventos de uma maneira não usual, tudo levando a crer que haja um comprometimento orgânico do Sistema Nervoso Central.

    É uma doença de fundo orgânico ou emocional?

  Antigamente, supunha-se uma causa orgânica, mas com o avanço da literatura psicanalítica surgiu a hipótese de que os pais seriam, de certa maneira, os causadores desta problemática. Atualmente, esta teoria caiu totalmente em desuso devido à enorme gama de estudos científicos, documentando um comprometimento orgânico neurológico central. O tratamento está, obviamente, centrado nestas novas descobertas, conforme os artigos incluídos neste livro.
 
   Esta mudança nos conceitos obriga a uma reformulação teórica, difícil de ser aceita por certos grupos que até então detinham o controle e o poder de tratamento destas crianças e que se vêem ameaçados com estas novas descobertas. É importante que os pais tenham conhecimentos atualizados para poderem questionar ou escolher o tratamento adequado para seus filhos.

   E os pais têm culpa?

   Antigamente, a literatura psicanalítica formulava a hipótese de que os pais eram "esquizofrenogênicos" ou do tipo "frio" e causadores da problemática de seus filhos. Hoje em dia, este conceito não é aceito, documentando-se nestas crianças, conforme já foi mencionado, um comprometimento orgânico-neurológico central. É claro que nenhum pai quer por vontade própria ter um filho doente ou lesado. É claro, também, que existem situações onde os pais interferem na evolução adequada dos filhos, mas isto não ocorre no Autismo e o diagnóstico diferencial é bastante fácil.

   Por que o atraso do desenvolvimento?

   Não se sabe exatamente todas as causas que levam ao Autismo, conseqüentemente não se consegue explicar corretamente o porquê do atraso do desenvolvimento. Sabe-se, porém, que ele é devido a um comprometimento neurológico central, com alterações no funcionamento de enzimas que levam as células cerebrais a não funcionarem adequadamente, acarretando, quando comprometidas, problemas diversos. Muitas pesquisas têm sido feitas nesta área e descobertas importantes estão vindo à tona, para exatamente melhorar e acelerar este atraso de desenvolvimento.

   As crianças com autismo têm atraso mental?

   Infelizmente, cerca de 70 a 80% apresentam uma defasagem intelectual importante. Cerca de 60% têm inteligência abaixo de 50 em testagens de QI, 20% apresentam um QI entre 50-70 e apenas 20% têm um QI acima de 70. A maioria mostra uma variação muito grande com relação ao que objetivamente podem fazer e oscilam muito de época para época. Não se sabe explicar exatamente o porquê da associação entre Autismo e deficiência mental, mas parece que o retardo mental está relacionado ao mesmo problema básico que gerou o Autismo. Por outro lado, por não conseguirem interagir adequadamente com o meio ambiente, aumentam ainda mais a sua defasagem intelectual.

   Qual a incidência desta doença?

   Ela é baixa, acontecendo em cinco entre dez mil crianças e é quatro vezes mais comum em meninos do que em meninas. Ela pode ocorrer em toda e qualquer família, independente de seu grupo racial, étnico, sócio-econômico ou cultural.

   Como é a abordagem escolar?
  
 Com o advento de técnicas especiais de educação para o deficiente mental, ocorreram mudanças dramáticas na capacidade de aprendizado de crianças em geral e, em particular, das crianças com deficiência mental. O enfoque atual é fazer com que estas crianças aprendam conceitos básicos para que funcionem o melhor possível dentro da sociedade. As escolas especializadas, atualmente, individualizam o tratamento para cada criança, tornando assim o aprendizado bem mais específico e eficiente.

   Os autistas precisam de psicoterapia ou psicanálise?

   De psicanálise não, uma vez que esta técnica visa a explorar o inconsciente e as motivações que aí ocorrem. Devido ao grau de lesão que apresentam, elas não se beneficiam desta abordagem, não dispondo de capacidade cognitiva para tal. Técnicas psicoterapêuticas, especialmente desenvolvidas para o deficiente mental, têm sido muito úteis para as crianças que apresentam problemas emocionais diversos. Esta abordagem visa a uma reeducação, facilitando o contato interpessoal e ajudando-as a aceitar melhor a problemática que têm, o que as levará a funcionar mais adequadamente dentro da mesma. É importante, porém, deixar bem claro que estas técnicas só funcionam quando o profissional tem treinamento específico nas mesmas e se sente motivado a ajudar. Além disto, o funcionamento intelectual cognitivo específico destas crianças tem que ser levado em consideração para se dimensionar adequadamente a terapia.

   Existe tratamento?

   Sim, e este vem evoluindo a cada ano que passa, não só na área escolar como também médica. Em linhas gerais, a abordagem destas crianças é semelhante à do deficiente mental grave, usando-se técnicas comportamentais visando a induzir uma normalização de seu desenvolvimento e lhes ensinando noções básicas de funcionamento, tais como vestir, comer, higiene etc. São utilizadas, também, técnicas especiais de educação detalhadas em grande profundidade neste livro. O uso de medicamentos, tentando normalizar processos básicos comprometidos, está sendo investigado, como é o caso da fenfluramine. O uso de medicação sintomática, para tentar controlar melhor o comportamento destas crianças, tornando-as mais fáceis de tratar com técnicas escolares e comportamentais, está muito desenvolvido. O resultado final é muito mais favorável, atualmente, do que há algum tempo atrás.

   E os pais precisam de psicoterapia, psicanálise ou orientação?

   Os pais que têm filhos com problemas sofrem. Isto é inevitável e sem exceção. E sofrem tanto mais quanto maior for a problemática do filho, a dificuldade de tratamento, a cronicidade do processo e também quanto maior for o seu nível de sensibilidade. Este sofrimento precisa ser abordado não só por razões humanitárias, mas, também, para que funcionem melhor como pais de filhos com problemas. 

Em outras palavras, esta criança precisa de ajuda de toda e qualquer ajuda e pais que tenham conseguido melhorar o seu funcionamento poderão fazê-lo muito mais eficientemente. Se isto não ocorrer, esta criança deficiente terá pais lhe dificultando ainda mais a vida.
 
   Em resumo, esta criança tem direito a pais saudáveis!!!
   Uma terapia ajuda neste sentido.

   O que o psicoterapeuta faz ou pode fazer pelos pais?

   O profissional ajuda os pais a compreenderem, discutirem, entenderem, além de trazer à tona sentimentos universalmente presentes em todos aqueles que têm filhos com problemas, ou seja, negação, culpa, frustração, impotência, ressentimento, raiva, rejeição, além de fantasias diversas. Ele ajuda a "trabalhar" estes sentimentos levando a uma aceitação dos mesmos como algo normal e com isto desenvolve-se uma sensação de alívio e de compreensão. Em resumo, de normalidade.

   Somente um psicoterapeuta pode fazer este trabalho?

   É claro que não. Uma pessoa realmente amiga, pais que já passaram por algo parecido, uma professora com vivência do problema, uma pessoa religiosa, por exemplo, podem ajudar e muito.
 
   O importante é existir neste "ombro amigo" carinho, compreensão e a capacidade de aceitar o sofrimento destes pais, de lhes orientar objetivamente sem críticas pejorativas ou jogo de culpa. A diferença destas pessoas para com o profissional é que este foi treinado para isto.

   Qual a diferença entre uma psicoterapia, psicanálise e orientação?

   Em linhas gerais, todas são técnicas que visam a ajudar um indivíduo, cada uma tendo as suas vantagens e limitações. Existem formas diversas de psicoterapias com "linhas" ou "escolas" diferentes, sendo a psicanalítica a mais divulgada e predominante no nosso meio. Poderíamos situar a psicanálise e a orientação em extremos opostos.    

A psicanálise, resumidamente, exige que todo o trabalho seja feito pelo paciente, que ele desenvolva uma capacidade de introspecção e auto-análise e que ele conduza a sua terapia trazendo temas e problemas. Já a orientação é direta e objetiva, visando, especificamente, aos problemas dos pais, "orientando-os" no manejo do dia-a-dia do filho, ensinando-lhes como lidar com situações variadas. 

Em resumo, de um lado a descoberta por si só, de outro o ensino, utilizando-se as mais diversas psicoterapias. O ideal seria que o terapeuta conhecesse e soubesse usar todas as técnicas ajudando, assim, mais abrangentemente o seu cliente. Em outras palavras, em vez de vender roupas prontas nas quais o freguês talvez não caiba, o bom seria o terapeuta ser um alfaiate que pudesse desenvolver uma terapia "sob medida", pois "cada caso é um caso" e apesar de semelhanças e generalidades o ser humano é único e exclusivo. O tratamento também deve ser assim.

   Do ponto de vista medicamentoso o que existe de objetivo para tratar os autistas?

   Infelizmente, ainda não existe nenhum medicamento específico para tratá-los, mas pesquisas diversas têm trazido resultados encorajadores como é o caso da fenfluramine, droga que interfere diminuindo o nível de serotonina, um neurotransmissor cerebral. Se ela se mostrar realmente eficaz, será o primeiro tratamento neurofarmacológico específico nesta entidade. Existem outros medicamentos não específicos, como os antipsicóticos ou tranqüilizantes maiores, como a thioridazine (Melleril), clorpromazina (Amplictil), halloperidol (Haldol), que atuam controlando certos sintomas de auto-agressão, acessos de raiva descontrolado e tornando a criança mais calma e manejável. Isto aumenta, indiretamente, o seu potencial de aprender e se desenvolver.

   Não existe a possibilidade destas medicações sedarem ou doparem a criança?

   Sim, se forem usadas excessivamente ou em doses altas demais, ou seja, inadequadamente. 

Conforme já foi dito, o uso de uma medicação do tipo "tranqüilizante maior" visa a exclusivamente controlar um certo comportamento como a agressividade, tornando a criança mais fácil de ser tratada por outras técnicas. A dosagem deve ser suficientemente alta para conter este comportamento e ao mesmo tempo baixa evitando a sedação, pois estando dopadas não se beneficiarão destas novas técnicas.

   Qual a maneira adequada de utilizar certas medicações?

   Os termos medicamentos "antipsicóticos" ou "tranqüilizantes maiores" são sinônimos. Os bons resultados dependem muito mais de quem os usa do que do tipo ou marca utilizada. O mais usado nos grandes centros é a thioridazine (Melleril) que no nosso meio vem apenas em comprimidos de 50 mg. 

Usa-se um a dois comprimidos por dia, inicialmente, observando-se a resposta terapêutica. Se não ocorrerem melhoras, aumenta-se a dosagem gradualmente de 50 mg de dois em dois ou três em três dias, podendo-se chegar a 400 mg por dia em uma criança de quatro a seis anos. Obviamente se tentará evitar, conforme já foi citado, efeitos colaterais desagradáveis, como sedação excessiva. É importante, também, ressaltar que a utilização de uma dosagem baixa sem os efeitos terapêuticos desejados é fútil, pois o paciente estará sujeito aos efeitos colaterais da medicação sem se beneficiar da mesma. De tempos em tempos, cerca de seis em seis meses, a redução da dosagem deve ser tentada, verificando-se a possibilidade de continuar o tratamento sem a utilização de medicamentos. Em outras palavras, quando utilizar uma medicação isto deve ser feito corretamente. Outra observação importante é o uso concomitante de outras abordagens ou técnicas que, se usadas adequadamente, tornarão a medicação mais eficiente.

   O que os pais podem fazer de objetivo para ajudar o seu filho ou a si próprios?

   Inicialmente, apesar de todo o sofrimento emocional, eles devem encarar e enfrentar o problema de frente. Como?    Procurando ajuda profissional especializada, competente, atualizada e séria. Como eles podem avaliar isto?    Perguntando, solicitando informações de outros e, obviamente, também do profissional. Em outras palavras, nada de cerimônias. Está em jogo o tratamento do seu filho. Além disto, devem estar em contato com outros pais para troca de experiências e vivências e com isto evitar a repetição de dificuldades, erros ou problemas. A criação de uma Associação de Pais e Amigos de Crianças Autistas tem surtido bons efeitos em outros países, e à semelhança da APAE (Associação de Pais e Amigos do Excepcional), pois permite que se permute conhecimentos, pesquisas e avanços nesta área. É crucial uma informação adequada dos pais sobre esta doença. Estas associações dão também uma sensação de coesão e meta, com isto se pode pressionar órgãos governamentais visando aos interesses destas crianças. Pode-se, também, levantar fundos junto a empresas e pessoas físicas para ajudar os menos favorecidos. A vantagem global da participação dos pais nestas atividades é que isto lhes dá a sensação de estar fazendo algo e não apenas esperando alguém fazer algo por eles. Isto lhes mitiga a sensação de impotência e inadequacidade. Também é importante a publicação de literatura específica e periódica, assim como o convite de especialistas para a troca de vivências e atualização.
    
Estas crianças são ou podem ser felizes?
 
   Todo ser humano tratado com carinho, amor e respeito sente-se querido e amado e, conseqüentemente, é feliz.    Estas crianças não são exceção. As dificuldades que têm causam certos empecilhos para obter carinho, amor e respeito, mas se o adulto souber redimensionar a sua escala de valores estas crianças se tornam tão queridas quanto qualquer outra e serão felizes. Os pais, por sua vez, passarão a vivenciar esta mesma sensação. O inverso também é verdadeiro. Pais saudáveis e bem equacionados, que souberam reavaliar expectativas e sonhos em relação ao filho, poderão ser felizes e com isto lhes transmitir esta sensação.
 
   Em resumo, pais de autistas podem ser bem ajustados, satisfeitos consigo, estar de bem com a vida e ensinar isto ao seu filho que lhes retribuirá esta sensação.

   Fonte: Gauderer, E. Christian. Autismo e outros atrasos do desenvolvimento: guia prático para pais e profissionais. Rio de Janeiro: Revinter; 1997. pg 327-330./autismo.com

AUTISMO - Etiologia


A etiologia do autismo ainda não foi definida. 

Não existe uma etiologia básica fundamental para todos os casos de autismo.

Estudos demonstram, indiscutivelmente, que fatores biológicos estão implicados na etiologia do transtorno autista, embora não tenha sido ainda identificado um marcador biológico específico.

Atualmente, sabe-se que o autismo não pode ser causado por fatores emocionais e/ ou psicológicos.

Estudos sugerem que não há um dano físico no Sistema Nervoso Central que desempenhe um papel primário na etiologia do autismo.

Os fatores genéticos aparecem substancialmente na etiologia do autismo.

Diversas linhas de investigação sugerem que determinantes ambientais também desempenham um papel na gênese do autismo.

As evidências apontam para a multicausalidade.

Descobertas recentes apontam a possibilidade de que o autismo possa ser causado por uma interação gene-ambiente.

fonte: autismo.com

Autismo - Definição

O autismo é um transtorno definido por alterações presentes antes dos três anos de idade e que se caracteriza por alterações qualitativas na comunicação, na interação social e no uso da imaginação.

DEFINIÇÃO DA AUTISM SOCIETY OF AMERICAN – ASA (1978)
   Autism Society of American = Associação Americana de Autismo.
   
O autismo é uma inadequacidade no desenvolvimento que se manifesta de maneira grave por toda a vida. É incapacitante e aparece tipicamente nos três primeiros anos de vida. Acomete cerca de 20 entre cada 10 mil nascidos e é quatro vezes mais comum no sexo masculino do que no feminino. É encontrado em todo o mundo e em famílias de qualquer configuração racial, étnica e social. Não se conseguiu até agora provar qualquer causa psicológica no meio ambiente dessas crianças, que possa causar a doença.
   
Segundo a ASA, os sintomas são causados por disfunções físicas do cérebro, verificados pela anamnese ou presentes no exame ou entrevista com o indivíduo. Incluem:
   
1. Distúrbios no ritmo de aparecimentos de habilidades físicas, sociais e lingüísticas.
2. Reações anormais às sensações. As funções ou áreas mais afetadas são: visão, audição, tato, dor, equilíbrio, olfato, gustação e maneira de manter o corpo.
3. Fala e linguagem ausentes ou atrasadas. Certas áreas específicas do pensar, presentes ou não. Ritmo imaturo da fala, restrita compreensão de idéias. Uso de palavras sem associação com o significado.
4. Relacionamento anormal com os objetivos, eventos e pessoas. Respostas não apropriadas a adultos e crianças. Objetos e brinquedos não usados de maneira devida.
  
 Fonte: Gauderer, E. Christian. Autismo e outros atrasos do desenvolvimento: guia prático para pais e profissionais. Rio de Janeiro: Revinter; 1997. pg 3.
 
DEFINIÇÃO DO DSM-IV-TR (2002)
   O Transtorno Autista consiste na presença de um desenvolvimento comprometido ou acentuadamente anormal da interação social e da comunicação e um repertório muito restrito de atividades e interesses. As manifestações do transtorno variam imensamente, dependendo do nível de desenvolvimento e da idade cronológica do indivíduo.

   
DEFINIÇÃO DA CID-10 (2000)
   Autismo infantil: Transtorno global do desenvolvimento caracterizado por: a) um desenvolvimento anormal ou alterado, manifestado antes da idade de três anos, e b) apresentando uma perturbação característica do funcionamento em cada um dos três domínios seguintes: interações sociais, comunicação, comportamento focalizado e repetitivo. Além disso, o transtorno se acompanha comumente de numerosas outras manifestações inespecíficas, por exemplo: fobias, perturbações de sono ou da alimentação, crises de birra ou agressividade (auto-agressividade).
fonte: autismo.com

AUTISMO - Histórico


O termo autismo vem do grego “autós” que significa “de si mesmo”.

Em 1906, Plouller introduziu o termo autista na literatura psiquiátrica.

Mas foi Bleuler, em 1911, o primeiro a difundir o termo autismo para referir-se ao quadro de esquizofrenia, que consiste na limitação das relações humanas e com o mundo externo.
 
Em 1943, o psiquiatra americano Leo Kanner, que trabalhava em Baltimore, nos Estados Unidos, descreveu um grupo de onze casos clínicos de crianças em sua publicação intitulada “Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo” (Autistic Disturbances of Affective Contact).

As crianças investigadas por Kanner apresentavam inabilidade para se relacionarem com outras pessoas e situações desde o início da vida (extremo isolamento), falha no uso da linguagem para comunicação e desejo obsessivo ansioso para a manutenção da mesmice.

Segundo Kanner, o autismo era causado por pais altamente intelectualizados, pessoas emocionalmente frias e com pouco interesse nas relações humanas da criança.

Em 1944, o pediatra austríaco Hans Asperger, em Viena, descreveu crianças que tinham dificuldades de integrar-se socialmente em grupos, denominando esta condição de “Psicopatia Autística” para transmitir a natureza estável do transtorno. Estas crianças exibiam um prejuízo social marcado, assemelhavam-se com as descritas por Kanner, porém tinham linguagem bem preservada e pareciam mais inteligentes. Entretanto, Asperger acreditava que elas eram diferentes das crianças com autismo na medida em que não eram tão perturbadas, demonstravam capacidades especiais, desenvolviam fala altamente gramatical em uma idade precoce, não apresentavam sintomas antes do terceiro ano de vida e tinham um bom prognóstico.

A publicação de Kanner ficou conhecida, enquanto que o artigo de Asperger, escrito em alemão, só foi transcrito para o inglês por Lorna Wing, em 1981.

O transtorno de Asperger se diferencia do autismo essencialmente pelo fato de que não se acompanha de retardo ou deficiência de linguagem ou do desenvolvimento cognitivo.

A diferença fundamental entre um indivíduo com autismo de alto funcionamento e um indivíduo com transtorno de Asperger é que o com autismo possui QI executivo maior que o verbal e atraso na aquisição da linguagem. Na prática clínica, a distinção fará pouca diferença, porque o tratamento é basicamente o mesmo.

É relevante salientar que algumas das especulações da publicação original de Kanner, como a frieza afetiva dos familiares (particularmente a da mãe), de a inteligência das crianças ser normal e de não haver presença de co-morbidade, com o tempo, mostraram-se incorretas.

Com a evolução das pesquisas científicas, concluiu-se que o autismo não é um distúrbio do contato afetivo, mas sim um distúrbio do desenvolvimento.

Em 1976, Lorna Wing relatou que os indivíduos com autismo apresentam déficits específicos em três áreas: imaginação, socialização e comunicação, o que ficou conhecido como “Tríade de Wing”.

fonte: autismo.com

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Qual o segredo da criatividade?

É possível uma criança ser mais criativa do que a outra? Os pais podem estimular o potencial dos filhos? Tudo o que você precisa saber e pensar a respeito do assunto para garantir um futuro ainda mais feliz para o seu filho.

Criatividade. 

Qual é a primeira coisa que vem à sua cabeça quando você pensa nessa palavra? Nós listamos algumas. Expressar-se da forma mais espontânea possível. Recriar algo ou inventar o que ainda não existe. Ter ideias fora do padrão. Brincar. Vestir-se do jeito que quiser, ler um livro de trás para frente. Realizar objetivos de uma forma diferente. Pensar o que não foi pensado. Ousar. Resolver problemas por caminhos não convencionais. Uma maneira de ser e viver. Tornar o imaginário algo real. Intuição, despudor da imaginação.

Quem aí não se pegou em imagens da própria infância? Liberdade boa aquela de fazer o que bem entende, de ficar perguntando o tempo todo. O prazer da ignorância, poderíamos dizer. E para onde foram esses sentimentos? Em que momento de nossas vidas esse sabor pelo novo escondeu-se em nós? 

Segundo os estudiosos, pode ter acontecido por volta dos 8 ou 9 anos de idade. É aí que passamos a entender como as coisas funcionam e nos chegam em formato de normas as noções do que é certo e errado. A criança começa a discernir melhor o que é e o que não é aceito pela sociedade. E passa a ter respostas prontas. 

“Na primeira infância, a criança é um pequeno cientista, tem sempre uma teoria para tudo. Se você perguntar como nasce uma estrela, ela terá uma explicação. 

Dos 8 anos, em diante, se fizer perguntas assim, ela já tem uma resposta: ‘Não sei’”, diz a educadora e socióloga Lourdes Atié. Essa fase é acompanhada da alfabetização, e isso não é coincidência. 

O desafio da nova etapa transforma o aprendizado em “coisa séria”. Antes, a criança brincava. Agora, precisa começar a estudar “de verdade”. E, sabe-se lá por que, alguém decidiu que estudo e brincadeira não podem caminhar juntos, como se um pudesse atrapalhar o outro.

O fato é que, quando nos tornamos adultos, nos deparamos com um retorno ao que nos foi priorizado na infância. Criatividade é pré-requisito em classificados de empregos, nos mais diversos setores. 

Encontros motivacionais em empresas colocam adultos para brincar. Livros sobre empreendedorismo nos convencem que romper com o convencional revela-se a única saída. “A ênfase exagerada na lógica inibe o processo criativo, porque a vida é cheia de ambiguidades. 

O sistema educacional é eficiente no desenvolvimento do pensamento concreto, mas não estimula o pensamento difuso. Pelo contrário, tenta eliminá-lo. 

Os testes de QI não medem o talento para música, pintura etc. Para o sistema, pensar é ter lógica”, escreve Fernando Dolabela em Quero Construir Minha História (Ed. Sextante), no capítulo dedicado à criatividade. O problema é que, ao entrar no mercado de trabalho, exige-se justamente capacidade criativa, sensibilidade e coragem de ousar. E não é só na vida profissional. Quantas vezes precisamos de soluções criativas na nossa vida pessoal? 

Por tudo isso, aproveite a infância do seu filho, ainda dá tempo de fazer algo por ela! Primeiro passo: não dá para ser criativo sem liberdade para pensar diferente. Se você, desde que seu filho for bebê, construir em volta dele um universo somente voltado ao que pode e não pode, ou impedir que ele faça descobertas sozinho, já começa a minar esse potencial. 

Começa cedo, nos primeiros cuidados. As caras e caretas que fazemos, o toque, os jeitos de se expressar, os tons de voz, tudo é referência. “Cada gesto que o bebê tenta imitar é músculo em movimento. É o bebê aprendendo a se expressar”, diz a educadora Vânia Cavallari, especialista em psicomotricidade. 

O mesmo acontece com a criatividade. Segundo a neuroeducação, tudo que aprendemos fica registrado em nossas células. Isso vale, então, para os estímulos, seja qual for a natureza, os bons e os ruins.

 E TODOS SOMOS CRIATIVOS?

Sim. Nascemos com o potencial. Porém, note a regra de ninguém menos que Walt Disney: “A criatividade é como ginástica: precisa exercitar”. Se em algum momento de nossas vidas esse “músculo” parar de ser estimulado, vai enrijecer. “Pode ser em quaisquer áreas que envolvam inteligência, adaptação, aprendizado, problemas a serem resolvidos. 

Criar não é só deixar fluir sentimentos, é também dar forma, realizar objetivos de maneiras diferentes”, diz a neuropediatra Lara Antunes dos Santos, coordenadora do Ambulatório de Desvios da Aprendizagem da Unesp de Botucatu (SP). Ou seja, criativa não é só aquela pessoa que faz desenhos incríveis, toca um instrumento musical ou inventa histórias divertidas. Mas também aquele avô que conserta tudo em casa, o motorista que tem sempre um caminho alternativo ao engarrafamento. É o que se dá conta do problema, elabora uma solução de um jeito novo, e realiza a empreitada. 

E também não basta só ter uma porção de ideias. Criativo é aquele que tem um “insight” e consegue colocá-lo em prática. Temos que sempre estimular a criança – e dar tempo – para que ela conclua o que está fazendo.

 Anna Marie Holm é uma educadora dinamarquesa que desenvolveu um grande trabalho com arte e bebês. Resultou no livro Baby-Art – Os Primeiros Passos com a Arte, lançado aqui em parceria com o Museu de Arte Moderna (MAM), de São Paulo. 

Em uma das atividades, ela deu pincel e tinta vermelha a Milan, um bebê de 9 meses. No colo da mãe e de frente para a vidraça de uma janela ele passou a pintar traços no vidro, o que era de se esperar de qualquer bebê. Nessa idade, o que não falta é vontade de experimentar e, aconchegado na mãe, ele se sentiu seguro para se expressar livremente. 

Parece simples, mas esse é o primeiro passo para desenhos mais elaborados que ele fará com o passar dos anos. Importante também, destaca Anna, é que sua mãe não tinha grandes expectativas. “Quando se cria é preciso fugir da necessidade de ser bem-sucedido o tempo todo”, escreve a autora.

Em Ituverava, interior de São Paulo, há quase 50 anos morava um menino que, com 1 ano e meio, falava sem parar. O vocabulário amplo o permitia já tão cedo contar histórias. Anos depois, criava personagens e enredos impressionantes brincando de teatro de fantoche. Quase na adolescência, produzia histórias em quadrinhos com a turma de amigos. Seus pais sempre lhe deram espaço e tempo para criar. 

Essa criança se tornou hoje o bem-sucedido jornalista Marcelo Tas, apresentador do programa CQC e colunista de CRESCER. “Tudo o que ele sabe aprendeu sozinho”, conta Shirlei Terezinha Tristão Athayde de Souza, a mãe coruja. Eis a matemática de Tas: habilidade com as palavras + apoio dos pais + vontade de conseguir algo + bolar um jeito diferente de pensar e inovar = um dos mais importantes comunicadores do Brasil. 

Esse “poder fazer” casa com uma teoria do psicólogo e jornalista norte-americano Daniel Goleman. 

Segundo ele, para desenvolver a criatividade, há quatro ferramentas essenciais: ter fé em si mesmo; ter ausência de julgamento (sim, aprender a silenciar aquela voz interior que nos censura); abrir-se ao mundo e observar tudo com a precisão de um cientista; e, a última, não ter vergonha de perguntar. 

Daí o papel dos pais na criatividade dos filhos ser essencial. Não só pelos recursos que pode prover. Mas simplesmente incentivando a criança a tentar. Veja que é bem mais do que dar tinta e pincel ou deixar pintar uma das paredes da casa. “Acontece em todas as situações em que seja possível estimular o pensamento divergente. Vai desde ‘o que vamos fazer hoje?’ ou ‘o que vamos cozinhar com esses ingredientes?’, até ideias para organizar um guarda-roupa (por cor, por tipo, o que for) ou para inventar brincadeiras”, diz a educadora e socióloga Lourdes Atié. 

 É HORA DE BRINCAR!

Quando o artista plástico Guto Lacaz tinha 10 anos pediu um instrumento propulsor de sua criatividade (que ele usa até hoje): um martelo. “Eu brincava de desmontar um monte de coisa, para ver como funcionava por dentro. Sempre tive muito espaço para as minhas ‘experiências’. Meu pai reservou um quarto para mim só para isso”, conta. 

A profissão de Alexandre Herchcovitch, estilista destaque no mundo todo, também começou em pique de brincadeira. A mãe dele, Regina, conta que foi em um dia de Carnaval que nasceu seu primeiro look surpreendente. “Era uma fantasia de mágico, com uma capa preta com gola e toda enfeitada de cartas de baralho. Fiquei impressionada como ele havia concluído a brincadeira de acordo com a ideia que teve.”

E olha quem apareceu aqui: o verbo brincar. É ele o segredo, porque faz tudo que a criatividade gosta e precisa. “Facilita a aprendizagem, o desenvolvimento pessoal e social, colabora para uma boa saúde mental, expressa impulsos e sentimentos, auxilia no desenvolvimento cognitivo, na capacidade de concentração e atenção”, diz a neuropediatra Danielle Roisin.

Quem continua brincando, continua sendo criativo. Eva Furnari, uma das mais importantes ilustradoras e escritoras de livros infantis no Brasil, é assim. A mestre do desenho, e da escrita “sem sentido”, nunca parou de se divertir com suas criações. 

Na infância, passava horas e horas desenhando. Adulta, descobriu que precisava associar à prática uma boa dose de disciplina, para dar conta da própria criatividade, ter foco e resultados. Uma coisa ela não abre mão: espontaneidade. E é isso que, segundo ela, não deve sair do dia a dia das crianças. Nada de estímulos demais – muitos brinquedos ou kits criativos com tantos acessórios, quase prontos.

Nos Estados Unidos, fala-se em “quociente de imaginação”. Dados do Mailman Segal Institute of Childhood Studies, na Flórida, mostram que o poder de imaginação de um indivíduo contaria mais no futuro acadêmico dele do que os tradicionais testes de aptidão, que apenas medem a inteligência. Até mesmo a Academia Americana de Pediatria anda fazendo campanha para os pais brincarem com os filhos e se concentrarem, inclusive, nos brinquedos antigos do que focar tanto nas novidades hi-tech (sim, só computador e games não valem!).

Recentemente, a Universidade de Washington, em Seattle (EUA), colocou os tradicionais blocos de montar no alvo de um estudo. Considerados os melhores quando o intuito é estimular a criatividade, eles foram distribuídos a famílias com crianças de 1 a 3 anos. Testes feitos seis meses depois apontaram que essas crianças aumentaram 15% o desenvolvimento de linguagem em relação às crianças que estavam fora da brincadeira. 

Por quê? Porque, quando você se dispõe a construir algo, precisa pensar a respeito com o que tem em mãos, sonhar um objetivo, imaginar como ficaria pronto, recomeçar sempre que preciso e finalizar o que planejou. Se precisar, vai ter que mudar de ideia, muitas e muitas vezes. Porque esse é o pensamento criativo: nada está pronto, nada é de uma maneira só. Muito menos a educação do seu filho, não? 


Por dentro do cérebro

De modo geral, o cérebro trabalha de forma conjunta e sincronizada para que se realize qualquer atividade criativa

FASE 1: PERCEPÇÃO
 
“Sentir” o problema ou desafio. Para isso, ativa-se as funções cerebrais relacionadas às tarefas perceptivas (associação de memórias e experiências anteriores) e à atenção.

FASE 2: TEORIZAÇÃO
 
Elabora o problema e converte-o em um modelo teórico. Entram aqui, por exemplo, as habilidades motora e tátil, noções de ritmo (sequência de ações em uma ordem de tempo), a memória imediata, o raciocínio matemático ou de leitura.

FASE 3: ENXERGAR A SOLUÇÃO
 
Momento dos “insights”, aquele “clique” que vem à mente não sabemos de onde.

FASE 4: FINALIZAR (SOZINHO OU EM EQUIPE)
 
Converter a ideia mental em prática. É onde se dá o tradicional “10% de inspiração e 90% de transpiração”. Entram em jogo a capacidade de planejamento da ação e habilidade motora para executar a ideia. 

Um baú de ideias

Brincadeiras para pôr a criatividade à prova!

0 A 18 MESES
• Brincar de “cadê, achou!”
• Fazer caretas, sons e imitar gestos
• Bater palmas
• Pegar e soltar objetos
• Ouvir música e dançar
• Encaixar blocos grandes

18 a 36 MESES
• Brincar de boneca
• Brincar com tinta
• Fazer construções com blocos
• Imitar cenas (como lavar o rosto e limpar o chão)
• Observar as formigas

3 a 6 ANOS
• Simular conversas ao telefone
• Inventar histórias e vestir fantasias
• Usar fantoches
• Brincar com miniaturas
• Desenhar e pintar com giz de cera e lápis de cor

A PARTIR DE 6 ANOS
• Inventar novas regras para os jogos
• Fazer coleções
• Realizar experiências científicas
• Construir com sucata
• Ler poesias
• Encenar uma história de um livro ou um filme
• Apostar corrida, jogar peteca, pular corda etc. 

Exageros que barram a criação

Elogiar demais
Dizer o tempo todo como uma criança é inteligente pode deixá-la muito autoconfiante. Ela vai acreditar que a habilidade é inata e não vai se esforçar quando não tiver um desempenho tão bom em determinada atividade.

Criticar os erros
Agir sem medo de errar é outra atitude natural da criança. Se você julgar sempre que ela fizer algo errado, ela pode se tornar insegura e perder a chance de criar coisas novas.

Inibir os porquês
Deixe a criança livre para perguntar, pois essa necessidade de questionar faz parte do aprendizado dela.

Superestimular
Seu filho não precisa de uma montanha de brinquedos ou de uma agenda cheia. Apresente uma coisa por vez para ele focar em algo.

Comparar com outras crianças
Enquanto o colega de escola (ou o irmão mais velho) é bom em matemática, seu filho pode desenhar muito bem. A criatividade pode estar em diferentes áreas. É uma questão de talento. 

Mostre interesse

Seja expondo os desenhos dele na divisória da mesa do trabalho, ou estimulando positivamente seus passos criativos, valorize o que seu filho faz. Ele precisa sempre saber que você está ali com ele. 

fonte: Crescer
Nem especial, nem regular, nem pra "normais", nem pra "deficientes"...apenas educação, porque chegará o dia que educação será uma coisa só.

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